Um editoral de silêncio em homenagem a José Mindlin

jose midlin
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Resolvemos ceder mais uma vez a palavra a José Mindlin, falecido no dia 28/02/2010, publicando a entrevista exclusiva cedida à Revista Villa Marianna em agosto de 2005.

O dia ainda dava suas primeiras espreguiçadas, lá pelas sete e quinze da manhã, Embaixo de uma árvore. um carro estacionado. um homem e um livro…

Naquele instante, por uma hora e meia, o mundo mudava de cenário e no lugar do dia-a-dia e da rotina de levar os filhos na escola entrava em cena os personagens sertanejos de Guimarães Rosa, as poesias de Drummond de Andrade e milhares de contos e histórias, principalmente da literatura brasiliana. Ali, Riobaldo* mostrava que o sertão era o mundo e o poema-piada de Brejo das Almas* parecia revelar o contrário. Quem via de fora enxergava um contaminado, por um vírus salutar, o da leitura.

Esta era uma das manhãs de José Mindlin, o colecionador de livros, (ou bibliófilo, se preferir), o Secretário de Cultura, o empresário bem sucedido, o amigo de Drummond de Andrade e conhecido de Guimarães Rosa, o menino dos rabanetes e eterno apaixonado pela esposa Guita. Um homem que deu e dá tiros certeiros em todos os sentidos. Curioso, holístico, uma lição de vida. A revista Villa Marianna abriu as portas da biblioteca de Mindlin, a maior do país, com mais de 30 mil exemplares, O resultado foi um bate papo informal, uma lição de vida e a certeza que os livros não são o maior legado que este homem tem para deixar. Para começar a conversa, com muita honra, passamos a palavra a José Mindlin.

Minha casa era na Sena Madureira, na época, sem asfalto e estreita. Lembro da gripe espanhola, um mal que assolou a sociedade paulistana. Na ocasião, meus pais montaram caldeirões no quintal para alimentar as pessoas do bairro que ficaram desamparadas Com a doença. Tinha gente de todo tipo na fila. Dos pobres aos ricos que perderam os empregados.

E quanto tempo o senhor viveu na Vila Mariana?

Pouco tempo. Até os cinco anos. As lembranças são da infância. Eu plantava rabanetes, com um primo, colhia e vendia para minha mãe. Pode ter sido aí que o tino comercial começou a surgir. Hoje, passo pelo bairro para ir ao Lasar Segall, sou do conselho deliberativo do museu.

Quando começou o envolvimento com os livros?

Eu tinha 13 anos. Pedi dinheiro para o meu pai para comprar o primeiro livro. Descobri que havia uma diferença de valores entre os mesmos livros vendidos em sebos diferentes.

Um vendia por cinco mil réis o que o outro vendia por 30. Assim, eu comprava no mais barato e deixava em consignação no mais caro. O dinheiro da venda, deixava como crédito nos sebos para comprar mais livros.

Assim, em pouco tempo, eu estava com um bom valor em todos os sebos do centro de São Paulo. Foi uma forma de começar a biblioteca sem desembolsar.

Então a biblioteca nasceu com intuito comercial?

Não, muito pelo contrário, Talvez meu lado comercial tenha se desenvolvido pelo nascimento da biblioteca, pela minha vontade e necessidade de leitura, isto sim foi a razão de ser da busca pelos livros. E foi por este amor pela leitura que hoje cheguei à mais de trinta mil livros.

Deu para ler todos?

É engraçado. Nós temos a ilusão de que vamos ler todos os livros que compramos.

Mas isso não acontece com ninguém. Com o tempo, o interesse pela aquisição dos livros foi mudando de forma. O primeiro impulso foi a leitura, depois o interesse pelas referências dos autores, os temas, e ai, quando você menos espera está pego pelo vírus do amor ao livro raro. Inicialmente, eu li Machado de Assis, as primeiras brochuras comuns. Ai, surgiu a vontade de ver como eram as primeiras edições. Fui conseguindo devagar. Depois a busca foi pelos livros autografados. E por ai vai, Uma biblioteca tem que ter a mesma obra em versões diferentes.

Podemos dizer que a comunicação eletrônica e digital é um dos grandes males da humanidade?

A inovação tecnológica vem para o bem e para o mal. Em geral, tem o positivo e o negativo. De fato, a facilidade de comunicação torna dispensável o encontro entre as pessoas, isso é negativo. Uma das coisas melhores é um bom papo com um amigo. O aspecto do contato humano é enfraquecido, artificial. Antigamente, as famílias se encontravam à noite… hoje, você chega para uma visita, e os mais velhos estão na televisão, enquanto os mais jovens no computador.

Qual o livro mais antigo que o senhor tem na biblioteca?

O mais antigo impresso que temos foi publicação em 1488, a primeira edição ilustrada das obras de Petrarca, um poeta do séc. XIII. É uma maravilha impressa trinta anos depois de Johann Gutemberg ter inventado os tipos
móveis. É unia peça que não é única, mas rara. Temos mais dois publicados antes de 1500. Depois, do séc. XVI temos de 150 a duzentos livros, é onde começam a surgir os livros sobre o Brasil, os primeiros viajantes, a invasão francesa. O livro no Brasil apareceu em 1808, antes disso a imprensa era proibida pelo Reino de Portugal, considerada instrumento subversivo. Quando a Corte portuguesa veio para o pais, graças à invasão de Napoleão, o Brasil começou a existir como nação, isto em 1803. Dizer que o Brasil tem 500 anos é ficção, pois 308 anos foram de uma colônia que não tinha desenvolvimento cultural.

Este retardamento cultural tem efeito hoje em dia?

Foi prejudicial, pois a cultura vai se consolidando e evoluindo com o tempo. Na Europa, tem universidade de mil anos. A USP tem apenas 70. Mas, em todos os países, não só no Brasil, a preservação da cultura é obra da minoria.

E como ficaram os livros na época que o senhor fundou a Metal Leve? Uma das maiores empresas do país deve ter precisado de atenção para chegar aonde chegou…

Eu sempre dediquei tempo à leitura, nunca me deixei envolver totalmente pela Metal Leve, quando estava na empresa cuidava dela. Devo ter uns departamentos no cérebro, com segmentos diferentes.

Problemas que surgiam na Metal Leve eu deixava para o dia seguinte, para resolver com a cabeça fresca. Não ficava martelando, nem levava para casa. Os livros nunca ficaram de lado. Eu sempre andei com um exemplar debaixo do braço.

Minhas leituras são feitas em períodos. Assim, eu conseguia ler de três a quatro livros por semana. Além disso, sempre lia à noite.

Quem seria um grande escritor para o senhor?

Guimarães Rosa para mim é o maior escritor do séc. XX, como Machado de Assis foi o maior do séc. X1X. É difícil falar em melhor porque não há critério para dizer o que é melhor ou não. Para mim, Guimarães Rosa é o melhor, outros gostam de Graciliano Ramos.

O senhor teve algum convívio cem Guimarães Rosa?

Sim, Guimarães Rosa era de dupla personalidade. O primeiro contato foi um mês em Paris, na conferência da paz. Nós saiamos correndo pelas livrarias durante os dias e ele não me deu nenhuma indicação que fosse escritor. Era um bom papo, muito simpático, gostava de livros e entrava nas livrarias como um leitor comum. Eu só fiquei sabendo da sua grandiosidade quando li “Sagarana” e “Grande Sertão: Veredas”, aí, eu fui conquistado. Grandes Sertões é sua melhor obra.

Eu tenho em casa correspondência de Guimarães com um tradutor italiano, onde ele mostrava a origem da palavra para o estrangeiro, onde ele encontrou.

Guimarães estudava muito para escrever. Não tinha preocupação com a carreira. Ficou pouco tempo como embaixador no exterior. Ele preferiu ficar no Brasil e poder fazer as viagens pelo interior. Ele filia o conhecimento da natureza do Brasil. Era médico, mas depois que começou a escrever não fez outra coisa senão isto.

Mas, ele era mais amigo de seu irmão. O senhor parece ter tido mais contato com Carlos Drummond de Andrade.

Gosto muito de Carlos Drummond de Andrade. Éramos muito próximos, nos correspondíamos, falávamos por telefone.

Nos dez últimos anos de sua vida tivemos muito contato. Era tímido, mas desses tímidos que resolviam tudo direitinho.

Vencida a barreira da timidez e da resistência, era um papo ótimo. Teve muitas aventuras amorosas, volta e meia se apaixonava. Tenho vários livros que ele me dedicou com versinhos inéditos.

E estas raridades estão asseguradas?

Não. O seguro é muito caro e eu prefiro cuidar da fiação e dos fatores que colocam em risco a preservação dos livros. O custo do seguro eu uso para comprar livros. Sou um otimista incorrigível. E outra coisa, o seguro, em matéria de raridade, não substitui a obra.

Uma vez tentaram nos assaltar. Os bandidos ameaçaram colocar fogo na biblioteca se eu não desse dinheiro para eles. Mas, no final, acabou tudo bem.

O senhor também foi Secretário de Cultura do Estado de São Paulo e parece ter deixado o cargo devido ao episódio da morte do jornalista Vladimir Herzog. É possível conversarmos sobre isto?

Prefiro deixar para outra conversa. No dia trinta de setembro foi lançado um filme sobre o Herzog, feito pelo atual Secretário de Cultura. Eu dei um longo depoimento sobre o episódio, acho que tudo que há para saber está rias telas.

E o papel da Dona Guita, sua esposa, na sua vida, na biblioteca?

Festejamos 67 anos de casados, Ela foi minha caloura na faculdade. Eu estava no quinto ano e ela no primeiro. Um dia, eu chego na faculdade e vejo uma moça cercada de rapazes em reboliço para entrarem em um dos partidos dos estudantes. E ela estava lá, no meio da bagunça da escolha dos partidos. Eu nunca tinha visto a Guita, entrei na roda e disse: “Isto tudo é bobagem, se você quer um bom partido, ele está aqui”.

E eu a peguei pela palavra. Ela foi companheira na formação da biblioteca. Recebi o titulo Doutor Honoris Causa, da USP, e na cerimônia eu falei ao reitor que tinha uma coisa importante a dizer e disse: “tudo que fiz na vida, fiz tendo minha mulher corno companheira, participante, e gostaria de propor ao conselho universitário de dividir meu doutorado em dois, para cada um ter uma metade”.

Para finalizar, qual o destino da biblioteca?

A parte brasiliana, metade do acervo, que tem coisas raras desde o séc. XVI, incluindo manuscritos, vai para a Universidade de São Paulo. Eles vão construir uni prédio para preservar . É a única forma de evitar a dispersão. Porque, refazer o conjunto que eu fiz em quase oitenta anos, é muito difícil. Vão ser mais ou menos 25 mil livros para a USR Os restantes são divisíveis, os filhos podem dividir entre si. O conjunto brasiliana perderia muito o seu significado se fosse dividido.

É certo que o amor ao Livro raro é um vírus, uma certa compulsão, que não é doença porque faz sentir bem, é incurável e traz benefícios.