Uma semente, milhões de mudas

Entrevista com a cofundadora e presidente do Instituto Terra, que se dedica, diariamente, à recuperação das águas e matas do nosso Planeta
Entrevista com a cofundadora e presidente do Instituto Terra, que se dedica, diariamente, à recuperação das águas e matas do nosso Planeta

Para celebrar o aniversário de 10 anos da Revista Villa Marianna, apresentamos uma entrevista com Lélia Deluiz Wanick Salgado, cofundadora e presidente do Instituto Terra. Conheça um pouco do trabalho, se inspire com seus resultados e com a dedicação de Lélia e seu marido, o fotógrafo Sebastião Salgado, para com o nosso Planeta

Sebastião, fotografa. Lélia, dirige, edita, promove exposições e cuida de todos os detalhes antes e depois dos lançamentos dos livros do casal. Juntos, lado a lado, conseguem tocar o coração de quem se depara com seus trabalhos. Ao abrir os livros produzidos por Lélia e Sebastião é impossível não se entregar ao exercício da reflexão. De “Outras Américas”, lançado em 1986, onde são mostradas as condições de vida de camponeses e índios na América Latina, à “Gênesis”, de 2013, que apresenta regiões do planeta que continuam intocadas, como em épocas ancestrais, é fácil entender as mensagens impressas, a preocupação em mostrar através da beleza das fotos a vida dos habitantes da Terra e o impacto que ela gera no Planeta.

Com essa vivência, em 1998, Lélia e Sebastião fundaram o Instituto Terra, na Fazenda Bulcão, uma antiga fazenda de gado, na cidade de Aimorés, em Minas Gerais. Ali, mesmo com 608,69 hectares degradados, o casal conseguiu o título de RPPN – Reserva de Patrimônio Natural – para as terras, com o compromisso de vir a promover um processo de recuperação ambiental associado a atividades educacionais.

O primeiro passo dado naquela época, transformou a vida na região de Aimorés. Hoje, o Instituto Terra trabalha na recuperação de cerca de 7500 hectares no Vale do Rio Doce, uma das regiões mais degradadas do Brasil, produziu mais de 4,5 milhões de mudas de espécies de Mata Atlântica e trabalha na recuperação de mais de mil nascentes da bacia hidrográfica do Rio Doce. Com isso, elas voltaram a jorrar água e espécies da faúna brasileira, em risco de extinção, voltaram para a região e agora têm um refúgio seguro. São 172 espécies de aves, seis delas ameaçadas de extinção, 33 espécies de mamíferos, duas delas em extinção no mundo e outras três no Brasil e mais 15 espécies de anfíbios e 15 de répteis. Assim, o Instituto se tornou capaz de fornecer 1 milhão de mudas por ano para a recuperação de outras regiões e é um centro irradiador de uma nova consciência ambiental, baseada na recuperação e conservação florestal, aumento da produção agrícola e melhoria da qualidade de vida no meio rural. Mais de 750 projetos educacionais já foram desenvolvidos para um público superior a 76 mil pessoas, de 176 municípios do Vale do Rio Doce. E como nos livros, Lélia e Sebastião, plantaram mais uma semente, um exemplo, que gera milhões de mudas, transforma vidas e é um legado para as próximas gerações.

1- No filme Sal da Terra é mostrado que a primeira câmera de Sebastião Salgado era sua. Nos descreva a primeira foto que ele fez. Nesse momento, você conseguiu imaginar o rumo que a vida de vocês iria tomar e que hoje estariam envolvidos em um projeto de reflorestamento e educação ambiental?

Uma câmera fotográfica é um objeto muito interessante e um curioso como Sebastião era natural que quisesse saber do funcionamento. Apontou-a para mim e apertou o botão. A satisfação foi tão grande que não parou mais. Foi uma foto em cor. Claro que naquele momento nenhum dos dois poderia imaginar o que aconteceria no futuro. A vida é uma constante mutação, as experiências do passado se somam à vivência do presente e ex-trapolam para o futuro. Os nossos projetos são baseados nessa premissa. Tudo que vimos e fizemos até aqui, em termos de viagens, reportagens, livros, exposições, foram a continuação de cada momento vivido e do aprendizado que tiramos dessas experiências. O Instituto Terra se insere neste caminho.

2- “Outras Américas”, lançado em 1986, no exterior, e em 1999, no Brasil, é o primeiro livro de vocês. Ano que vem ele faz 30 anos. Tanto essa publicação, como todas as ou-tras que vieram posteriormente, têm influência no que é o Instituto Terra hoje em dia? Qual a contribuição de Êxodos, Trabalhadores e Gênesis para o projeto do Instituto?

Com o trabalho “Outras Américas” vimos como os camponeses tinham uma vida difícil, mas, perto da natureza e completamente em harmonia com ela. Já com “Trabalhadores” era questão de mostrar o lado humano produtivo na sociedade econômica. “Êxodos” mostrou o lado mais difícil da nossa sociedade, as migrações causadas por guerras, problemas econômicos e catástrofes naturais. Foi nessa época que tomamos posse da Fazenda Bulcão. Este lugar só refletiu o que vimos antes com os outros trabalhos. A população da região onde se localiza a fazenda não vivia mais em harmonia com a natureza. O desmatamento foi total em prol de um suposto desenvolvimento econômico, tendo como consequência a migração do campo para a cidade. Ficamos completamente perplexos, e num primeiro momento sem saber o que fazer ao ver aquela terra completamente exaurida, sem capacidade de produzir mais nada. Até que nos veio a ideia de recuperar aquele pedaço de terra replantando a Mata Atlântica. Com a vida voltando, não podíamos deixar de compartilhar com os outros, o nosso entorno, daí o nascimento do Instituto Terra. Quanto ao “Gênesis”, a ideia apareceu justamente com a maravilha da transformação daquela terra. Veio junto a vontade de mostrar o que ainda tem de pristino no planeta e exortar o público para a preservação.

Instituto Terra - Foto Weverson Rocio

Instituto Terra – Foto Weverson Rocio

3- O reconhecimento de Reserva de Patrimônio Natural, concedido à Fazenda Bulcão, sede do Instituto Terra, quando ela ainda era uma área degradada, é inédito. Na época, vocês estavam certos de que alcançariam os resultados de hoje?

Sabíamos que seria um dos maiores desafios a que nos propomos na vida. O título de RPPN só foi obtido junto ao Governo de Minas diante do compromisso que assumimos de recuperar a área. O primeiro investidor foi o Funbio (Fundo Brasileiro para a Biodiversidade), que exigia como contrapartida investimento de igual valor, montante que obtivemos reunindo recursos próprios e contando com a ajuda de empresas e pessoas que acreditaram no projeto. Todos esses passos não foram fáceis e exigiram grande comprometimento de nossa parte. O “como fazer” é que foi sendo definido ao longo dos anos. Com o reflorestamento da RPPN, o Instituto Terra se transformou num grande laboratório de práticas de restauração florestal. Já plantamos mais de 2,5 milhões de árvores apenas dentro da RPPN e vamos ingressar agora na fase que chamamos de enriquecimento florestal, para promover o aumento da biodiversidade na floresta plantada. Além de um laboratório de sementes, temos um viveiro de espécies nativas de Mata Atlântica, com capacidade para produzir 1 milhão de mudas por ano, que está fornecendo mudas também para projetos externos de reflorestamento, tanto em Minas Gerais como no Espírito Santo. Estamos agora com grande foco no Programa Olhos D’Água, que tem como meta recuperar todas as nascentes da bacia do Rio Doce, estimadas em perto de 400 mil. Paralelo a tudo isso, desenvolvermos programas de educação ambiental, para diferentes públicos, desde alunos e professores do Ensino Fundamental até líderes comunitários, produtores rurais e agentes públicos. Mantemos também um curso gratuito para capacitar técnicos agrícolas na recuperação de áreas degradadas. Tudo isso dentro do ideal de recuperar a Mata Atlântica e promover o desenvolvimento sustentável no Vale do Rio Doce. Não é uma meta fácil, pois estamos falando de uma área do tamanho de um país como Portugal. Temos a tecnologia para fazer, mas precisamos de apoio.

4- Quais os números do Instituto, hoje?

São números expressivos. Ao todo, são mais de 7 mil hectares de áreas degradadas já recuperadas ou em recuperação no Vale do Rio Doce. O viveiro do Instituto Terra já pro-duziu mais de 4,5 milhões de mudas de 293 diferentes espécies da Mata Atlântica. Além disso, mais de 830 projetos educacionais já foram desenvolvidos para um público superior a 79 mil pessoas, de 176 municípios do Vale do Rio Doce. Nosso curso gratuito de formação pós-técnica já capacitou 98 técnicos (agrícolas, ambientais, florestais e agropecuários) na recuperação de áreas degradadas. Atendemos aproximadamente 1000 produtores rurais pelos vários programas do Instituto Terra. Outro dado que emociona é que, com a floresta em crescimento, os animais também voltaram – inclusive espécies em extinção no mundo e no Brasil. O monitoramento da fauna na RPPN Fazenda Bulcão já registrou 172 espécies de aves; 33 espécies de mamíferos; 15 espécies de anfíbios e 15 espécies de répteis. Nosso programa de recuperação de nascentes salvou da extinção mais de 1,2 mil nascentes e agora vai iniciar a proteção em mais 5,7 mil olhos d’água de afluentes do Rio Doce.

5- Na fase atual do Planeta e da evolução do homem, qual a importância da educação ambiental? Ela é mais urgente que o reflorestamento ou os dois andam lado a lado?

A educação ambiental e o reflorestamento precisam andar lado a lado, sendo o componente da educação o grande motor da transformação. Apenas o conhecimento pode efetivamente mudar esse modo de vida que toma como base o uso indiscriminado dos recursos naturais, sem a preocupação com a sua recomposição, tendo água e florestas como recursos infinitos. A participação da sociedade é o único caminho para mudarmos essa rota da degradação ambiental que coloca em xeque a própria sobrevivência dos seres humanos na Terra. Esse engajamento só vai acontecer na medida em que todos tiverem a consciência de que é possível unir produção com preservação. E o conhecimento de como fazer isso implica em aprender com a natureza e com aqueles que vivem na região, respeitar os conhecimentos tradicionais, investir em pesquisa e promover o desenvolvimento de novas técnicas. É verdadeiramente viver tudo isso na prática e aproveitar os melhores exemplos e resultados.

6 – Como nasceu o programa “Olhos D’água”, eleito pela ONU-Água, uma das 70 melhores práticas no mundo para revitalizar recursos hídricos?

O Programa Olhos D’Água nasceu da nossa experiência no Instituto Terra. Logo nos primeiros anos, após os primeiros plantios e com as árvores já em crescimento, certo dia, durante uma volta na propriedade, nos deparamos com um filete de água correndo pela estrada. Era uma pequena nascente que estava voltando a minar água. Foi uma emoção enorme ver que, junto com o verde, as fontes de água também estavam renascendo. Neste momento tivemos a total certeza de que seria possível resgatar a vida que existia naquelas terras. Investimos em pesquisa e percebemos que poderíamos replicar essa experiência para além dos limites da fazenda, ajudando principalmente os pequenos produtores rurais a resgatar a água em suas propriedades. É dessa experiência que nasceu esse programa que tem como meta recuperar todas as nascentes do Rio Doce. Projeto longo e ambicioso que é ver o Rio Doce com o seu curso normalizado, outra vez navegável, nas-cendo em Minas Gerais e desaguando no mar no Espírito Santo

Lélia e Sebastião Salgado na RPPN Fazenda Bulcão sede do Instituto IT 2005

Lélia e Sebastião Salgado na RPPN Fazenda Bulcão sede do Instituto IT 2005- Foto: B.Gysembergh – Parismatch

7- Em época de crise hídrica no Brasil quais seriam as medidas que cada cidadão deveria tomar para revertermos a situação?

É claro que a população deve se engajar, por exemplo, com mudanças de hábito em seu cotidiano. Mas, os desafios são ainda maiores e não dá mais para perder tempo. Temos uma questão prática: quanto mais árvores plantadas, mais umidade você retém no solo, garantindo que as fontes de água se mantenham vivas o ano inteiro, mesmo nos períodos de seca. Nós destruímos nossas florestas e matamos os rios. Hoje, as reservas e barragens dependem da água da chuva para encher, quando deveriam encher com a água dos rios, córregos e nascentes. Precisamos agora fazer o caminho inverso das gerações anteriores: precisamos começar replantando as florestas para resgatar as fontes de água doce. Devemos dar um passo definitivo para restabelecer o equilíbrio ambiental que perdemos para prover o conforto da vida moderna. Tudo isso somente será possível se tivermos ações articuladas, envolvendo toda a sociedade, e também os agentes da esfera pública e privada. Só assim poderemos realizar ações de maior alcance e ter sucesso no futuro. Se cada um tentar resolver do seu jeito, pode dispersar, e não ter um resultado prático eficaz. O problema da água no Brasil deve ser encarado com muita seriedade e agilidade, pois pode gerar um custo social enorme. O processo de destruição foi longo, e a recuperação será também longa e precisamos começar agora. Já estamos atrasados.

8- Em Gênesis vocês abordam a questão da relação da humanidade com os animais e o planeta. No Instituto Terra, vocês promovem a volta das espécies ao seu habitat e o aprendizado de homens, mulheres e crianças sobre viver em harmonia com elas. Qual a postura que os humanos deveriam ter com os outros habitantes da Terra, os animais e as matas?

Nós – os humanos – nos sentimos donos exclusivos do planeta, achamos que podemos destruir tudo em nome de uma suposta vida melhor. Este comportamento tem que mudar. Esta casa não é só nossa, é a casa de todos os seres vivos. Temos que aprender a respeitá-los. Se acontecer um problema e faltar oxigênio durante alguns segundos, os humanos todos desaparecerão levando junto muitas outras espécies. O planeta vai se recuperar, outras espécies vão aparecer e espero bem mais inteligentes do que nós.

9- Nesse último espaço, como é aniversário da revista, gostaríamos de “plantar”, mesmo que com papel e tinta, uma “semente” para quem nos lê. Uma mensagem sua, de quem dedicou a vida para aqueles que não têm voz, mas não podem ser esquecidos, sejam as florestas ou os personagens dos livros que fez com seu marido. Uma mensagem de conscientização em relação ao Planeta.

Reflorestar aquelas terras foi mesmo a melhor ideia que tivemos. A resposta positiva que recebemos da natureza nos motiva a fazer sempre mais. Saber que podemos ajudar a mudar esse rumo de degradação ambiental, promover o reflorestamento e restabelecer as fontes de água é algo magnífico, que faz todo sentido para nossa existência. Mas, todo o caminho percorrido até o momento foi muito importante. Plantamos uma ideia, semeamos parcerias, regamos energias, colhemos conhecimento e acreditamos, acreditamos muito que conseguiríamos atingir nossos objetivos. Para o futuro, espero que o que fizemos possa servir de exemplo para muitas outras e melhores iniciativas. Acho que é isso, precisamos antes de tudo nos conhecer e saber de nosso papel no planeta. Precisamos ter iniciativa e acreditar que com a união de muitos podemos transformar em melhor tudo à nossa volta.

Fotos: Divulgação e Arquivo Instituto Terra