Mochilão Baiano

Ponta do Xaréu em Itacaré Bahia
Ponta do Xaréu em Itacaré Bahia

A aventura que levou nossa redação a lugares inesquecíveis, em 25 dias de pé na estrada pelo litoral sul da Bahia.

Regras devem ser quebradas

Saímos de São Paulo em uma madrugada de sábado para chegarmos ao Rio de Janeiro com dia claro. A intenção era chegar ao extremo sul baiano. na pequena cidade de Prado, quando o dia estivesse terminando. por volta de dez da noite. Com tantas paisagens verdadeiramente perfeitas pelo caminho, ficou impossível concluir o plano inicial. Paramos para descansar em Guarapari. no Espírito Santo, depois de muitas pausas para fotografias em locais que sabíamos que não voltaríamos a ver tão cedo, Um incrível acerto em nossa viagem. Sentados nas cadeiras do barzinho em que petiscava= uma bela porção de isca de peixe. ao entendermos que era apenas a primeira noite de muitas que se seguiriam. começamos a estender a empreitada no se diz respeito ao percurso, Ao lnves de terminarmos a subida pelo país no extremo sul baiano. decidimos ali, no meio do Espírito Santo. que iríamos ao norte do sul baiano, que faríamos a volta em Itacaré. Ao final do trajeto faríamos apenas 500 km a mais do que o previsto, Porque não?

Com tantas paisagens verdadeiramente perfeitas pelo caminho, ficou impossível concluir o plano inicial…

O início da viagem

Depois do café da manhã, às oito horas, salmos para conhecer algumas praias de Guarapari, a pé mesmo, seguindo pelo Caminho de Anchieta (marcações feitas pela extensão da costa). A expedição terminou à uma da tarde. quando o horário para o check out do hotel terminou e o saldo fotográfico estava bastante satisfatório. Aliás, vale colocar aqui uma boa dica aos navegantes: sempre é possível combinar uma leve extensão do horário para deixar o hotel em que se está. Ao entrar no carro, o Ford Fiesta Trail que escolhemos para a aventura. pequei o mapa e rapidamente calculei o tempo que levaríamos até chegar em Itacaré. Uma boa esticada de sete horas de estrada, mas muito compensatória. Quando caiu a noite avistamos a placa “Bem-vindo a Itacaré”. um lugar que marca. e muito. a quem já esteve por aqui.

Enfim, o objetivo alcançado…

Itacaré é um pequeno paraíso do sul baiano, principalmente para quem gosta de trilhas, cachoeiras e praias. Os cenários espalhados pelo vilarejo são espetaculares. daqueles que nos deixam com os pensamentos em conflito. querendo ficar para sempre. Ao mesmo passo que é um lugar de paz. tem uma noite fantástica. Os forrós são os pontos de encontro dos boêmios e simpatizantes, assim como nós, que paramos de dançar quando raiou o dia. O único problema que vimos nisso tudo e aliar dias de atividade intensa. desbravando trilhas, atravessando rios e suando sob o sol escaldante à belíssima noitada apresentada. A partida para Ilhéus foi apertada. Até chegarmos… Em Ilhéus o tempo passa devagar. A terra de Gabriela Cravo e Canela, clássica obra de Jorge Amado, respira romantismo pelas ruas centrais, todas voltadas ao mestre literário.

Vila Caraíva

Vila Caraíva

O Bar Vesúvio, cenário que serviu de inspiração para o livro. é a principal atração e é onde está a famosa estátua do bom baiano. Além de história Ilhéus tem praias de primeira linha. As do norte são virgens, de rara beleza. como em filmes. As do sul são as mais frequentadas. principalmente pelo fácil acesso e pelas inúmeras barracas que atendem aos turistas. Não são pequenas tendas e sim grandes construções e palcos de shows ao vivo e outras atrações. Ah. Bahia… Quando saímos rumo à Porto Seguro a intenção era permanecer apenas um dia e uma noite. Foi um sonho não concretizado. Logo que entramos pelas ruas da cidade fizemos boas amizades e o tempo de estadia foi aumentando. principalmente quando começamos a participar das intermináveis noites de muito agito. A vida do viajante é assim: quanto mais conhece, mais quer participar. Em Porto Seguro o Brasil nasceu, cresceu e tem sua essência. A essência do brasileiro, aquela que não deixa o mau humor chegar perto. Ainda bem que o próximo destino escolhido foi Arraial d’Ajuda, logo depois de cruzar o rio, ao sul, pela balsa, assim não sentimos tanta saudade. Ao chegar em Arraial d’Ajuda, como por encanto, esquecemos Porto, mas não significa que seja um termo pejorativo. Arraial tem uma magia especial. Como os próprios moradores costumam dizer. uma versão melhorada de Búzios. no estado do Rio de Janeiro. A vila é extremamente charmosa. perfeita para férias tranquilas e requintadas, com muitos bons restaurantes e lojas de grife. As praias também são muito convidativas, algumas delas semi desertas em certas épocas ano. As mais badaladas são as de Mucuge e Pitinga. com boa estrutura para alimentação e hospedagem. Arraial está sempre em alto astral, como nos seus fascinantes forrós e bares cheios de musicalidade. como um bom destino baiano. É interessante ver que muitos dos nativos são provenientes de outros estados do país. Não foi difícil perceber porque. Até nós queríamos nos ajeitar_ Depois de passar ótimos dias em Arraial d’Ajuda, seguimos para Trancoso, ainda anestesiados pela noite anterior no forró do shopping.
Dna. Isabel, o melhor acarajé do mundo

Dna. Isabel, o melhor acarajé do mundo

Não demorou muito. pelas pequenas estradas de terra, e entramos nas imediações do pequenino vilarejo. Trancoso é especial. pacífico e transmite o clima hippie dos anos 60 e 70, quando o local foi descoberto. Hoje é mais sofisticado, atraiu muitas marcas famosas do meio da moda. sem perder o charme rústico. O Quadrado é o pedaço mais conhecido da vila. onde mesas de restaurantes tomam espaço embaixo de árvores e pessoas se encontram quando cai a noite. A noite… A noite é algo que merece destaque. sem dúvida. Quando menos se espera, algum cantor famoso está se apresentando em banquetas de bares. em clima descontraído ao extremo. Pessoas conversam entre si. um calor humano raro, não encontrado facilmente pelas andanças no Brasil. Além de tudo isso, as praias são magníficas. caso da Praia do Espelho. Caro leitor. foi a mais bela paisagem já vista por meus olhos. A passagem por Trancoso foi mais rápida do que o esperado. ou melhor, o tempo passou mais rápido. O que é bom dura pouco. Pegamos a estrada para Caralva, passando por aldeias indígenas e manadas de búfalos, ao melhor do estilo aventureiro. Achamos que já tínhamos visto de tudo. mas nos espantamos com a sublime beleza da vila de Caraíva. A energia elétrica só chegou ao local em 2008 e veículos automotores não conseguem cruzar o Rio Caraiva. Deixamos o Fiesta Trail em Nova Caraíva, uma espécie de bairro que cresceu antes da península, e só voltamos para buscá-lo ao final de nossa expedição pelas pequenas vielas locais. Para encontrarmos D. Isabel. dona do melhor acarajé do mundo e da Bahia (segundo ela mesma!), descemos quase um quilómetro de trilha em terra batida. D. Isabel é um amor de pessoa e mora com pura simplicidade e muita alegria. A recepção não poderia ser melhor. O estilo de hospedagem é bem rústico, com muitos campings, assim como os restaurantes encontrados pelo caminho. Assim é melhor. Quanto menos luxo. mais se chega perto da verdadeira paz. Como não poderia deixar de ser, a noite é regada à musicalidade do forró, um ritmo que faz o mais incrédulo dos dançarinos se render a ele. e vai até o sol nascer.

É difícil dormir em Caraiva. porque tudo deve ser aproveitado ao máximo. Mas a dificuldade maior está em partir… Em outra manhã o rumo que tomaríamos terminava em Cumu-ruxatiba. Sim, o nome é esse mesmo. Cumuruxatiba. o lugar que tem um oceano brincalhão, que tem o sossego como sobrenome e que prende o atento olhar do turista para a paisagem belíssima. Não me espantaria se corressem lágrimas de alguns ao apreciar o local. Explicando o porquê do oceano brincalhão: a maré. todas as manhãs, recua cerca de 200 metros. deixando toda a bancada de corais à mostra. com árvores de mangue ao sol e piscinas naturais. É um real espetáculo da natureza. Os pescadores que não estão ao mar esperam a maré subir novamente para garantir o sustento diário. Ë assim que a vila se move, em passos lentos. em precisos passos de bem estar Em Cumuruxatiba são raros os estabelecimentos que trabalham com cartões bancários e fomos pegos nisso. Só que a confiança de seus moradores é tão grande que a boa fé nos permitiu “pendurar” algumas compras. Para sanar nossa dívida, sacamos dinheiro em uma farmácia de um amigo que fizemos durante a noite musical de um dos quiosques. Depois de dias incríveis, com muito sol e porções de camarão. retornamos para a BR-101. O dia foi silencioso. quase que amargurado. apenas com sorrisos islados de cada um de nós. certamente lembrando de passagens de nossa viagem. Os meus eram. Pensamos que uma última noite deveria acontecer em nossa empreitada. uma noite comemorativa. de agradecimento pela oportunidade que tivemos. O local escolhido. claro, no meio do caminho. foi Búzios. ao vermos a placa que indicava a entrada para a cidade. Foi exatamente assim: “vamos pra Búzios então?”. Foi a melhor atitude que tomamos. A noite de Búzios é espetacular, com muitas opções para o entretenimento através dos bares e casas noturnas. O ritmo mudou drasticamente do axé e forró para o funk carioca e suas dançarinas. O clima não mudou. A alegria permaneceu e em certo momento, mesmo com música alta. conseguimos conversar sobre tudo o que estávamos vivendo. O abraço coletivo foi inevitável. Acordamos pela manhã, com muito sol. e salmos para o último dia. o vigésimo quinto. fora de casa. As praias de Búzios são muito sofisticadas e muita gente bonita é encontrada em suas faixas de areia. Com dias de sol, o bom tumulto fica evidente. Bom tumulto porque é apenas uma gritaria animada. jogos de frescobol e muito surfe, nada de confusão.
Ao final da tarde, partimos…

Texto e fotos por Felipe Carneiro

Esta viagem foi feita com o Ford Fiesta Trail