O Ator – Entrevista com Milton Levy

Entrevista com Milton Levy
Entrevista com Milton Levy

Ele se movimenta harmoniosamente pelo palco, um território bem conhecido. Afinal, são 37 anos de carreira. Usa as mãos, as pernas, o corpo todo, principalmente o coração, para abraçar a plateia e plantar alegria no coração das pessoas. Um dom que, para quem já se deliciou assistindo suas peças, se tornou um prazer, o “melhor remédio”, como dito popular, o néctar de rir.

Conheça um pouco da história de Milton Levy, vilamarianense roxo, apaixonado pelo trabalho de ator, pelo bairro e que, com uma humildade única, está transbordando sucesso com suas duas poças em cartaz e como entrevistado de “carteirinha” do Programa do Jô.

Como começou a carreira de ator?

Meu primeiro trabalho profissional foi uma peça da Ruth Escobar, Miss Saleiga, no Teatro Ruth Escobar. Comecei com o pé direito e acabei indo para a Europa junto com esta peça, fizemos urna carreira linda em Portugal e depois fornos para Angola, quem já foi para Angola. né? Deve estar na vigésima quinta opção de roteiro de viagem das pessoas. Mas, de graça é o melhor pais do mundo. Agora, 37 anos depois, estou de volta ao Ruth Escobar.

Com a peça “O Amante do meu Marido”, certo?

Sim. Ela mesma, que eu costumo chamar como um grande fenômeno teatral destes últimos anos. Porque sem nenhuma produção, sem nenhum patrocinador, sem nenhuma verba, nós conseguimos lotar este teatro com uma comédia simples, dinâmica e muito engraçada.

Você já é entrevistado de cadeirinha no Programa Jô Soares, não é?

Já participei duas vezes. Em uma das apresentações de “O Amante do Meu Marido”, um produtor do Jô estava na plateia, gostou do nosso trabalho e me convidou para uma entrevista no programa. Como não sou conhecido, fui como um “franco atirador”. E a entrevista correu de uma forma muito espontânea, muito engraçada. A ponto de eu estar indo embora, produtora do já me chamar e convidar para fazer um segundo bloco. Ai, na verdade, acabei fazendo dois blocos e meio do programa. Porque comentei que tenho o costume de tocar rock dos anos 60 e tive que finalizar o programa tocando. Tudo no Improviso, mas muito bom.

E o novo trabalho, o “Stand-up” de onde nasceu a ideia?

Exatamente no Programa do Jô. O próprio Jô me disse: ‘você me contou histórias que eu ri muito. Porque você não monta um Stand-up com as suas histórias?’ Eu nunca tinha pensado nisto e prometi pensar nesta ideia com carinho. Isto foi em dezembro de 2008, em junho de 2009 resolvi abraçar este projeto com “garras e unhas” e o chamei de “O Dia em que comi a pomba gira”.

Entrevista com Milton Levy

Entrevista com Milton Levy

E como é “O Dia em que comi a pomba gira”?

Eu montei um “Stand-up” um pouco diferente da forma tradicional. Amarrei seis, sete histórias para terminar em uma grande história, a da pomba gira. Todas as histórias têm a ver uma com a outra e o “grana finale” é em Angola. E depois. você assistindo ao meu “Stand-up” vai saber o porque do nome. Agora, o mais interessante é que o próprio “Stand-up” me levou de novo ao Programa do Jô. Acabei fazendo humor na caneca.

E como tem sido a experiência neste novo espetáculo?

Eu estou em um teatro de 59 lugares e desde que comecei a peça venho colocando cadeiras extras na sala. Depois mudei para um teatro de 300 lugares, na apresentação que acontece às quintas-feiras. E sabe o que tem sido uma experiência fantástica? Saber que o público vem para me ver. Porque no “Amante do meu marido” eles vêm ver uma peça e no “O dia em que comi a pomba gira”, por ser um “stand-up” e eu estar atuando sozinho, o público aparece apenas para ver o meu trabalho. Isto tem sido uma experiência bem interessante, principalmente para um ator desconhecido como eu. Me dá um orgulho bom, de reconhecimento de uma sementinha que venho plantando há anos. É muito gostoso.

E como é a carreira de ator?

É danadinha. Oh carreira danadinha. A pessoa tem que ter uma vocação para saber esperar, saber viver sem dinheiro e saber conviver com pessoas egóicas. A nossa profissão que o ego comanda. O que é muito feio. Então, por isto tudo, é uma carreira delicada. Mas, fascinante. Eu não troco nada deste mundo pela minha carreira. Ainda mais depois que descobri que o palco é mágico. Ele tem o poder da cura. Você entra com dor de cabeça o sai curado, você entra com dor de estômago e sai curado. Do jeito que você entra você sal diferente. E sempre para melhor.

E a Vila Mariana, o que você me diz do bairro?

É a minha paixão. Uma paixão tão grande que moro a vida inteira no bairro. E eu sempre brinco que sou o Chiquinho do futuro. O Chiquinho é o barbeiro mais conhecida do Brasil, pelo menos de São Paulo. Ele está na Vila Mariana há uns 70 anos e eu percebo que estou seguindo os passos dele. Vila Mariana é fascinante. Eu nasci no bairro, onde é hoje a Cinemateca, o Largo do Matadouro, em 1950. Estou aqui há 58 anos. Sou fascinado por este bairro, que tem de tudo. Metrô, bares, faculdades, escolas, supermercados e por aí vai. E todo este fascínio que tenho pelo bairro fez com que me convidassem para ser vereador. Mas, não é minha praia. Gianfrancesco Guarnieri escreveu na Vila Mariana “Eles não usam Black Tie”. Jô Soares, que morou na rua Áurea, escreveu alguns dos seus primeiros textos, que originaram um “stand up”, logo no começo da carreira, na Vila Mariana. Rita Lee morava na rua Pelotas. Nos anos 60 a Vila Mariana foi um reduto de grandes bandas de rock. Se isto tivesse em algum país da Europa teria uma placa na frente da casa do Giantrancesco Guarnieri dizendo: ‘Aqui foi escrito’ Eles não usam Black Tie ou outras nas portas das ex-residências do Já ou da Rita Lee.

Você participou de alguma destas bandas?

Sim! De uma que se chamava ‘Os Maníacos”! E nós inauguramos a famosa domingueira da Circulo Militar.

Onde as suas peças estão em cartaz?

As duas nas salas da Ruth Escobar. “O dia em que Comi a Pomba Gira’ às quintas-feiras, a partir das 21h30. E ‘O Amante do Meu Marido’ de sexta a domingo.

Texto: Fabiano Godoy
Imagens: Felipe Carneiro

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