Doce Sertão

Litoral da Paraíba - Praia Carne de Vaca
Litoral da Paraíba - Praia Carne de Vaca

7800 km, 10 Estados, uma pitada de aventura e muitas dicas para você conhecer o Nordeste do país na nossa garupa e preparar as malas para as próximas férias

por Fabiano Godoy

“O rali Paris-Dakar não irá mais largar na Europa, em 2009 ele acontece na Argentina e no Chile, começando em Buenos Aires”. O homem do noticiário, na televisão, parecia gritar esta frase de tão feliz que fiquei quando soube que o maior rali do mundo, considerado a maior aventura do planeta, iria ter a sua largada logo ali, na Argentina.

A partir dai, o reveillon de 2008 para 2009 estava fechado. Seria na estrada, de motocicleta, rumo ao Deserto do Atacama, aos Pampas Argentinos e do Pacífico de Magalhães, um dos pontos mais bonitos da Terra. Na semana da viagem, uma infinidade de imprevistos atravancou os primeiros quilômetros no sentido do Sul do Brasil. Todos burocráticos, permissão para entrar na Argentina com a motocicleta, RG com menos de 10 anos de emissão e a Carta Verde, uma espécie de seguro obrigatório para andar de moto ou carro por “aquelas bandas”. A viagem começou a dar errado, o Atacama estava cada vez mais longe e talvez conseguíssemos entrar clandestinos na Argentina por uma fronteira do Chuí, onde trabalha apenas um guarda, em uma pequena alfândega, numa estrada de terra. Quer dizer, era só ficar atrás da moita, esperaro sujeito ir ao banheiro e acelerar para o outro lado da cerca. Desistimos, eu e meu companheiro, o Beto, do Pastel Croc, parceirão de viagem e da Revista Villa Marianna. Ali acabou o sonho do Dakar 2009. Mas, começou a nossa aventura.

No relógio eram 07h30 e o ponto de encontro inicial, um novo bar da Joaquim Távora, o Gas Wah, abriu suas portas só para nos oferecer um último café da manhã decente até a volta, “sei lá quantos dias e histórias depois” – “E agora? Para onde vamos? Se não passarmos a fronteira topa ficar rodando pelo Sul? Florianópolis, Porto Alegre, Itaimbezinho?” – perguntei para o Beto.

– “Não vamos arriscar e depois ficar tomando chuva em Santa Catarina, que tal tocar para Fortaleza, no Ceará!?” – respondeu em tom de brincadeira, mas bem animado com a ideia. – “Fechado!” – em menos de cinco minutos estávamos rumo a Fernão Dias, saindo de São Paulo.

E dá-lhe chuva! Do Gas Wash até Belo Horizonte foi um banho só. Paramos em uma das delícias gastronômicas da estrada e, não deixe de experimentar quando passar por Minas, comemos um enorme pão de queijo recheado com requeijão e linguiça caseira. Que maravilha! Em Belo Horizonte, dormimos e no dia seguinte pé na estrada para pegar a BR-116 e pular para o lado de lá, para a Bahia, nosso primeiro pedaço de Nordeste.
Divisa Minas e Bahia
E o Sertão, com maiúscula mesmo, afinal é o Sertão e o Sertão merece respeito, por ter personalidade, por ter se mantido intacto, com uma beleza rude e agressiva desde a época de Lampião e Maria Bonita, estava ali, logo depois das enormes pedras que povoam a divisa da Bahia com Minas Gerais, irmãs menores do famoso Monte Pascoal, que nos esperava 10 dias depois, na volta pelo litoral.
sertao
Dormimos em Teófilo Otoni, bem na divisa. Ali o pessoal fala um mineirês com baianês, que é único. A cidade é conhecida como “Capital Mundial das Pedras Preciosas”, sendo o maior centro lapidário do Brasil, com mais de três mil oficinas dedicadas ao ramo. De manhã partimos para Feira de Santana, ainda na Bahia. O caminho começou a ter pinceladas do cerrado e o vazio tomou conta da estrada.

No céu azul as nuvens diminuíram e pareciam saltar do cenário. O asfalto estava branco, como sal, eo no meio da BR-116, a morte estava mais viva do que nunca e bem representada nas carcaças de bois, jegues e outros animasi que já não estavam mais ali por terem sido atropelados ou apenas sentido no corpo a sede e a seca da região.

Passamos por Canudos, palco da revolução que leva o mesmo nome, e pelo trecho mais perigoso e temido do Nordeste brasileiro, a divisa da Bahia com Pernambuco, conhecida como o Polígono da Maconha, entre Cabrobó e Floresta, onde todos dizem: “Se for para se arriscar por aquelas bandas, que seja de dia e sem parar”.

E não é que é verdade. As primeira pessoas que vimos logo após a travessia da balsa eram dois policiais que rapidamente nos alertaram sobre o perigo de rodas por aquelas bandas de noite, no escuro do sertão, em uma região que algumas cidades têm até toque de recolher. Sobrevivemos ao Pernambuco, rodamos mais 800 km e chegamos em Fortaleza, de noite, depois de termos atravessado seis Estados, 3100 km, em três dias.

Mar à vista

Pernambuco
Fortaleza é uma terra boa, abençoada. Por mais calor que faça sempre tem uma vrisa para refrescar. Ficamos uma semana à deriva, da praia do Cumbuco, onde dá para comer uma moqueca de arraia para duas pessoas por R$ 9, para Aquiraz, a primeira capital do Ceará, e de Aquiraz para o Futuro. Vale a pena conhecer cada cantinho daquela região. E demos sorte. O Beto morou um tempão por l
a e é “minhoca da terra” conhece todo mundo. Sendo assim, fomos bater um papo com “O Xerife da Praia”, o Don Giovanni, que sujeito bacana, engraçado e dono da barraca Energia Erótica, que consegue reunir curiosos do mundo inteiro para prestigiar as invenções do Xerife.
Praia Cumbuco
Ele já passou pelo Domingão do Faustão, pelo Gugu e por uma infinidade de outros programas e conseguiu nos dobrar em uma das suas “pegadinhas” mais manjadas pelos frequentadores da barraca. Um show~Se você for para Fortaleza não deixe de visitar a Energia Erótica e bater um longo papo com o Don. Ah! E aproveite para comer um peixe fresco, que entra em cena ao som de sirene de ambulância, em uma maca. “O bicho está morto, temos que trazer na maca”, explicou Giovanni.

A Pipa

Saímos de Fortaleza descendo no mapa em direção a Natal. Passamos voando pela capital do Rio Grande do Norte e aportamos na Pipa, um dos “points” imperdíveis do Nordeste com aque super pacote: praias paradisíacas, excelentes hotéis e restaurantes e muitos passeios. A Pipa é totalmente organizada para o turismo e tem, inclusive, um Santuário Ecológco, com museu pró-tartarugas e golfinhos. Aliás, ali tivemos a oportunidade de nadar com os golfinhos. Eles estão espalhados por uma bela baia bricando livremente com os turistas. Não deixe de tomar uma caipirinha nos bares da praia e conhecer as Pousadas Riva’s e do Sol, de um dos grandes anfitriões da Pipa, o Marcelo, que nos recebeu muito bem. O Marcelo era de Itanhaém, conheceu a Pipa, se apaixonou e levou toda a família para lá.

O que a Paraíba tem?

Muito lugar bonito! Eleito o Estado com a melhor orla do nosso roteiro. A Paraíba é ainda bem inexplorada e tem um litoral de cair o queixo. A água azulzinha e muita natureza. Para quem gosta de investir em terras o lugar é cheio de opções, com fazendas recém loteadas à beira mar. Em João Pessoa passamos pela Ponta dos Seixas, o ponto mais oriental do Brasil, o menor caminho até o Continente Africano. Mais para o sul da capital passamos pela Praia do Coqueirinho e a de Tambaba, que vale muito a pena a visita, mas cuidado! Tambaba tem uma área dedicada ao nudismo. A Paraíba é pequena e pode ser percorrida em dois dias de viagem.

E Recife já não é mais a mesma…

É uma pena, voltei a Recife depois de 10 anos e não reconheci a cidade, que já foi considerada a Veneza brasileira. Muita favela, muito assalto, segundo os moradores locais, e um trânsito que não faz jus às belezas que rodeiam o lugar. Vale a pena passar para conhecer um pouco da história e confirmar o que estou escrevendo. Não preciso nem dizer que nossa passagem por Recife foi muito rápida e descemos direto para Porto de Galinhas.
Pousada Chales Dourado - Maragogi
O lugar está mais badalado do que nunca. Para quem gosta de agito é a praia perfeita. Em Porto passa uma barreira de corais que desce quase todo o litoral, são mais de 300 quilômetros de formações. Nossa opção foi descer acompanhando os corais até um ponto mais sossegado. Chegamos em Maragogi! Eleita a melhor praia da viagem! Sem dúvida alguma. Maragogi é uma enorme piscina transparente e se orgulha de ter as águas mais clamas do litoral alagoano. Ficamos três dias na pousada Chalés Dourado, do nosso novo amigo Ronaldo Uchoa, que fez de tudo para tornar a nossa estadia perfeita. Sendo assim, é lógico que acabamos mergulhando nos corais de Maragogi e nas Galés, dois passeios imperdíveis.

A foz do São Francisco

Três dias em Maragogi e partimos em direção a Maceió, capital de Alagoas. A ideia era passar rapidamente por lá e recuperar o tempo das férias que tiramos em Maragogi. Passamos pela Praia do Gunga, com uma linda plantação de coqueiros, e acabamos chegando em Penedo, na foz do rio São Francisco, que já havíamos atravessado, a alguns quilômetros dali, na ida para Fortaleza. Penedo é pura história. A cidade foi ponto estratégico e esconderijo dos holandeses na época da colonização. Ali existem ruínas de fortes, prédios e casarios que fazem a cidade transpirar passagens importantes das páginas do Brasil. E foi em Penedo, depois de uma noite de sono que conhecemos novos parceiros de viagem, aventureiros também, o Sérgio e sua esposa, em uma Honda Biz, indo de Maceió para Curitiba, e o Evandro, com a namorada, em outra Honda, uma Broz, que havia saído de São Paulo para “pegar” o Sérgio em Maceió. Uma turma boa que nos acompanhou até o Gas Wash, em São Paulo.

Oh meu rei, estamos em Salvador!

Pelourinho
De Penedo atravessamos o velho Chico de balsa e pegamos estrada até Aracajú, uma cidade limpa, bonita e com uma energia muito boa, estávamos no Sergipe. Almoçamos e seguimos viagem para Salvador, pela famosa Linha Verde, uma estrada muito bem pavimentada, mas com assaltos depois das 20h.

Portanto, se for para lá cuidado com a “bandidagem”. O que é recomendado em toda Salvador também, onde tivemos uma lição a duras penas. Atravessamos a cidade para nos hospedarmos no Pelourinho. Literalmente: “que ideia de jerico”. Principalmente porque chegamos por lá às 00h30 de uma sexta-feira. O lugar é um horror. Drogados pelas ruas, traficantes, becos que são verdadeiras armadilhas, prostitutas e muito “gringo” adorando aquilo tudo. Impressão do Pelourinho a noite: “é inacreditável a forma como o brasileiro consegue transformar pobreza e desgraça em turismo”. Impressão do Pelourinho de dia (voltamos para ver se não era tão ruim): um lugar historicamente bonito, ainda com muita droga e assaltos pelos becos e onde a sensação de estar sendo observado o tempo todo é latente.

Bahia, Minas e Rio

Saímos voando de Salvador pelos Ferry Boats para a Ilha de Itaparica, de lá fomos direto para Itacaré, um paraíso no sul da Bahia. Bem no estilo da Pipa e de Porto de Galinhas, um pouco mais selvagem. Itacaré tem muita gente de paz com a vida e o público fica na faixa dos 20 a 25 anos de idade, a maioria do Rio de Janeiro e Brasília. De Itacaré descemos para Canavieiras, uma paradinha para dormir, e saímos da Bahia por Nanuque, na Estrada do Boi, indo direto para Caratinga, em Minas, a cidade do escritor Ziraldo, onde tem um enorme “Menino Maluquinho” na praça. Dali o roteiro passou por Juiz de Fora, Barra Mansa, onde atravessamos as fazendas de escravos e São Paulo, no Gas Wash, onde as motos receberam uma bela lavagem.

Desta história ficam muitas imagens, grandes companheiros de viagem e mais um aprendizado sobre o EU, o ELE, o mundo em que vivemos e do que somos capaz. Ao todo foram 7800 km em 12 dias de estrada, recheados de aventuras, alegrias, medos e descobertas, em uma região que mescla a agressividade do cerrado com a doçura do oceano, um fórmula apaixonante.

Não deixe de conhecer:

Em Maragogi:
Chalés Dourado

www.chalesdourado.com.br
Tel.: (82) 3296-9223

Na Praia da Pipa:
Pousada Riva’s

www.rivasdream.com
Tel.: (84) 3246-2111