Casamento Indiano

Casamento Indiano
Casamento Indiano

fotos e texto: Grace Knoblauch

Acompanhe a aventura espiritual de nossa repórter em uma travessia inédita pela Índia, o país dos tempolos, sabores e valores milenares

A echarpe voava solta, levada pelo vento do Rajastão. Usava um Ray-ban, vestia uma kurta de linho e seda, a caminho de mais um templo da Índia. Já faziam alguns dias que eu rodava por aquele país e minha missão naquelas terras era assistir a um típico casamento indiano, aqueles com cerca de três mil convidados e uma festa que dura mais de uma semana.

Cheguei em Shrinathji, o tempo em Nathdwara, que recebe dez mil devotos diariamente. Tirei os sapatos, todos a minha volta estavam descalços, e fui levada pelos corredores do lugar. Caminhei sobre flores, leite, água, folha soltas, talo de legumes, moedas e pedras.

Eram milhares de pessoas e a guarda indiana me protegia da multidão. Dei-me conta da importância do ecento. Continuei por um túnel, que se ligava a outros. Nas paredes, Krishna nos brindava através de pinturas, uma mais bonita que a outra, e foi aí que me soltei, deixei meu corpo ser levado.

Quando abriram as cortinas da estátua de Krishna, começaram as batidas nos tambores, seguidos de mantras, euforia, sinos, gritaria, cada um no seu lugar, cada vez mais fortes e intensos. Ali tinham sacerdotes num rito de homenagem, uns trazendo círculos com o foto, Aarti, e outros colocando comida e brinquedos aos pés da estátua, Puja.

Eu aprendei a importância da constante reformulação de idéias, como forma para sermos pessoas melhores.

Fechei os olhos. Relaxei. Naquele momento não escutava mais nada. Era eu comigo mesma. Agradeci a Deus por tudo que a vida tinha me dado. Me sendi em paz e ouvi, de um voz firme e calma: “podem tocar seu corpo, mas não podem tocas sua alma”. Meus olhos não se abriram e enxerguei uma luz, vinda do alto, como uma queda de cachoeira. Azul cintilante, com faíscas, vindo em minha direção. Parou no ar, lentamente, estava dentro de mim, e a palavra amor ganhou vida, caridade também, o significado de criação ficou claro e o que me veio foi a energia da concepção de Nossa Senhora.

Para mim significou a energia de Cristo, não tenho palavras para definir, e ao mesmo tempo tenho certeza que senti algo que não depende da religião criada pelo homem, mas sim do que cada um sente sobre a origem da alma.

Eu não conheci o Taj Mahal, muito menos o Ganges. Mas conheci a Índia dos indianos. Participei do casamento de pessoas que nunca tinha visto na vida e me senti em casa, especial.

Tive a experiência estiritual mais intensa da minha vida e comecei a enxergar o mundo co outros olhos. Pertencia àquele povo, sentime viva e querida.

Como eu fui parar naquele país? Uma mensagem pelo Orkut me levou a um indiano, o Sr. Anil, um líder de uns 50 e poucos anos, baixa estatura, calvo e sorridente. Um exportador e secretário de uma das ONGs mais influentes do estado do Rajastão. Também, um homem espiritualizado, alinhado, agitado, posicionado, feliz e que me convidou para o casamento de seu filho, Aditya. Eu fui levada a passar um mês na Índia, envolvida com os preparativos do casamento. Tudo porque, em uma feira do Brasil, ele me disse: “Você tem que ir ao casamento do meu filho. Nós temos uma ligação de outras vidas”, ele conversou com minha família, mandou a passagem e eu fui. Tão habituada a corer pelo “ter”, busquei o equilíbrio optando pela vivência do “ser”, abrindo mão até mesmo de altos salários, só para viver a emoção que me levasse a saber quem sou, de onde vim e para onde vou.

Um país único

A Índia é o país do sentir, ela está no mistério de um olhar, na atenção que as pessoas prestam em você, na duração de um suspiro, no silêncio entre duas palavras, no comércio milenar, nos camelos, e nos campos de mostarda.

Quando você pergunta para o noivo porque ele está se casando, ele te diz que sem a mulher, a vida não propera. Se você perguntar como então é esta incrível noiva, ele responde: “melhor que eu”.

A filosofia de vida não pára por aí. Entrar na cozinha é entrar no território sagrado. Lá existe o templo da casa. As indianas me ensinaram que comida é para o corpo, mas depois de abençoada, é o alimento para o espírito.

Em geral, o indiano é feliz, muito do que se vê em termos de miséria é real e verdadeiro. Mas isso não os faz um povo amargo e agressivo, aliás, são pessoas com uma incrível pureza no olhar. Num excelente exercício de concentração a Í dia te mostra como viver em paz no meio do caos, da miséria e da modernidade crescente.
Musicos Rajastao
Conhecer o Rajastão é saborear cores, formas e sons. São palácios, fortes militares, histórias de glória e sangue, é sentir a coragem de um povo, que coloca no altar da amizade os valores mais nobres de sua civilização e, a partir daí, é capaz de defe nder sua honra, nem que isso custe sua própria vida.

Eu aprendi a importância da constante reformulação de idéias, como forma para sermos pessoas melhores. Ao colocar o mundo das emoções entre nós podemos falar sobre temas diferentes e, ao mesmo tempo, compartilhar do mesmo resultado. Isso é o jeito Índia de viver. Cada um com sua particularidade, mas todos unidos pela mesma razão.

Eu posso escrever detalhes da viagem, dizer que foi lindo demais, um choque cirúrgico movido a amor e caridade, mas ainda não terei a certeza de ter compartilhado a emoção que vivi, por isso prefiro lhe perguntar. “Como é a alegria de realizar um sonho?”, e depois de aprender com a sua resposta, dizer-lhe com um sorriso: “A Índica foi igual para mim”.

Valeu a pena sentir tudo isso e descobrir que o paraíso ou a grande viagem está me todo lugar, desde que ela esteja primerio dentro de você.

ARTE! ARTE! ARTE!

Voltei da viagem e preparei quadros da Lakshmi, a divindade da Properidade e símbolo da força feminina. O quadro acompanha um kit para a realização do Aarti e do Puja. Encontre:

Grace Knoblauch – Tel.: 11 561 2632
Diferenza Acessórios – Tel.: 11 3061 3437, www.diferenza.com.br
A Lot Of – Tel.: 11 3068 8891, www.alotof.com.br
Delhi Palace – Tel.: 11 3073 1209, www.delhipalace.com.br

Para se dar bem na Índia:

. Coma pimenta e acostume-se com este alimento um mês antes de viajar.
. Tenha MUITA paciência na alfândega.
. É raro ver papel higiênico, tenha sempre um com você.
. A mão esquerda serve para a higiene pessoal e a direita para comer.
. A água da Índia é mais salinizada, tome sempre água mineral.
. Que delícia é o Gulab Jamum! Os pastéis de Samosa também são uma iguaria.
. Passeio de trem, ônibus, taxi ou lambretta. Os trens cruzam a Índia, o “luxury bus” é equipado com água e ar condicionado. O táxi é um carrinho chamado Piagglo, tem três rodas e é todo aberto, sem falar nas lambretas, que atravessam os becos mais incríveis do comércio indiano.
. Use uma roupa indiana, e sente-se numa calçada qualquer, só para poder pulsar com a vida na Índia
. Visite os templos e acompanhe os gestos dos indianos.
. Cada lugar tem uma forma de dizer “olá”. O Namastê é o coringa.
. Se você desejar aprofundar um pouco mais na cultura, mostre que a cultura deles, também aprofundou em você. Saiba viver com os constrates e a Índia será uma caleidoscópio de formas, cores e sabores.
. O único lugar que senti mal cheiro, foi na estação de trem. Os demais locais tinham um mix de perfumes que variavam entre o incenso, samosa, lírio, rosa e mel.
. Seja você: Reconheça que somos diferentese vivemos no mundo as diferenças, mas isso não quer dizer que você precise aceitar tudo, ou fazer cara feia para o que não gosta.

A potência feminina

Aprendi com os indianos que a base da sociedade começa na mulher, e que a sabedoria ancestral, associada aos conceitos da mulher moderna, propera um homem, uma família e uma sociedade. Ouvi de Aditya, o noivo de 26 anos, às vésperas de seu casamento: “sem a base que só a mulher sabe construir, como eu poderei crescer?”.

A mulher sente orgulho de cuidar da casa e é tratada por seu marido como se fosse sua sacerdotisa particular. Ouvi do Sr Pathak, enquanto estive em sua residência: “os direitos iguais residem no respeito às diferenças e funçõies de cada um.”, na ocasião, ele olhou para sua esposa Sushila com carinho, que devolveu num sorriso, e ele complementou “nós somos como as duas rodas do mesmo carro, andamos alinhados, no mesmo ritmo, e com um objetivo comum, a nossa família, a base da nossa sociendade. Ela fica com a parte mais preciosa da nossa vida, que são nossos filhos e a construção de um lar próspero e a mim sobra trazer o sustento financeiro”.

Observei o Sr. Anil chegando cansado após um longo dia de trabalho. Sua esposa, Sra. Shyama, serve o chá, senta perto, ri dos assuntos, e gradativamente ele relaxa. Chega a hora de dormir e eu ainda não tinha ouvido a Sra. Shyama partilhar os problemas do seu dia. Na manhã seguinte, Sr. Anil aparece cheio de decisões e ações. Descubro que ela soube esperar pelo momento propício para pedir ajuda em alguns problemas da cas, sem quebrar o clima de harmonia criado na noite e sem que ninguém percebesse.

Ah! Importante, no casamento o noivo chega montado em uma égua levado por um procissão que o guia desde a sua casa. Na Índia isto tem um significado especial, para eles é a última vz que o home irá comandar uma fêmea.