Textos do cotidiano

Textos do Cotidiano por Cinthya Nunes - Imagem Shutterstock
Textos do Cotidiano por Cinthya Nunes - Imagem Shutterstock

Por Cinthya Nunes

Quando recebi o convite para escrever uma coluna na Revista Villa Marianna, oportunidade que jamais perderia, comecei a pensar sobre o que escrever, em quais temas poderiam ser do agrado dos moradores desse bairro tão charmoso da cidade de São Paulo.

Quando me mudei para São Paulo, vinda do interior do estado, procurei um local no qual me sentisse em casa, que tivesse uma localização prática, com jeito de residencial, mas com as comodidades de um comércio abundante e com metrô. E assim, enquanto procurava um canto para chamar de meu, encontrei-me na Vila Mariana, na qual fixei residência desde 2008.

A Vila Mariana tem muitas coisas que me agradam e, enquanto penso nelas vou concluindo que, nos dias atuais, nos quais temos vivido tantas coisas complexas, assustadoras, em meio a tantas notícias de desonestidade, de violência, falta-nos um pouco de leveza, algumas ilhas de tranquilidade para que nos seja possível uma pausa, um momento de delicadeza.

Morar na Vila Mariana, inclusive, é, em vários aspectos, um respiro, um refúgio, uma alternativa de vida para quem valoriza a convivência entre a tradição das casas antigas, com quintais e jardins e a modernidade dos arranha-céus. Viver na Vila Mariana é encontrar estabelecimentos comerciais que são conduzidos por várias gerações de uma mesma família; é descobrir, andando pelas ruas, pés de ameixa, amora, pitanga, laranja, figo e até pés de maracujás que sobem pelos troncos de árvores ou pelos muros, em abraços apaixonados e perfumados.

O observador mais atento é capaz de encontrar ninhos de pássaros que, em abundância, fazem morada por aqui. Eu mesma já vi ninhos de beija-flor, casas de joão-de-barro e isso sem falar das rolinhas. No meu quintal, onde não tenho um único pedaço de terra, mas muitos vasos com flores, frutinhas e verduras, as maritacas, os sabiás-laranjeira, as cambacicas, os beija-flores e até morceguinhos insetívoros são visitantes contumazes. Gosto de andar a pé pelo bairro, conhecendo ruas delicadas, às vezes quase escondidas no cruzamento de avenidas repletas de prédios, com pessoas que parecem brotar de dentro deles, em um entra e sai intermitente.

De repente se está atravessando uma rua movimentada, naquela mistura de ônibus, trólebus, carros, motos, bicicletas, pedestres e, metros adiante se depara com uma vila de casinhas encrustadas no coração de algum quarteirão, como se ali estivessem em outra dimensão de tempo e espaço. Por aqui é possível também conhecer lugares que são incríveis, repletos de história e de estórias.

Há padarias incríveis, novas e tradicionais, casas de bolos, restaurantes familiares e pizzarias famosas, cinemateca, igrejas, barbearias antigas e cabelereiros da moda, faculdades, escolas de música, escolas de arte, escola de confeitaria, supermercados e mercadinhos, casa de linguiças especiais e mais uma quase infinidade de serviços e estabelecimentos. Sempre há um novo lugar a conhecer, um sabor a provar, gente para conhecer, histórias para deliciar o coração. Infelizmente, nem só de boas coisas é feito nosso bairro, porque a violência, a sujeira e o descaso de vários setores da sociedade já são elementos disseminados por toda cidade, por todo país.

Tomo a liberdade, contudo, na medida do possível, de não engrossar a já extensa parcela da mídia escrita e falada que se dedica a apontar as mazelas do mundo, seja com que intento for. Prefiro explorar outras pairagens. Por certo que há outros tantos bairros bacanas de se viver em Sampa, mas aqui na Vila Mariana meu coração fez morada e parte da minha vida já está registrada há quase nove anos nesse lugar.

Escrever sobre esse bairro que é minha casa e de tanta gente, é um verdadeiro privilégio e assim, a partir de agora, vou dedicar esse espaço para contar um pouco sobre os lugares e as pessoas incríveis que esse pedaço especial da maior cidade da América Latina tem para oferecer. E se você quiser sugerir algum lugar ou personalidade interessante da Vila Mariana para essa coluna, é só escrever para nós…

Até a próxima edição!

Cinthya Nunes
Cinthya Nunes é advogada, cronista, professora universitária e paulistana de coração.
cinthyanvs@gmail.com