Saudosa Padoca

Tive a alegria de viver os melhores anos de minha infância dentro de uma padaria, pois meu avô paterno, o Seu Zé, era padeiro e dono de uma pequena panificadora. Até hoje, quase passadas três décadas da morte dele, não há uma única vez na qual eu passe por uma padaria sem que lembranças com aroma de pão recém assado me venham à mente.

A padaria se chamava Aurora e ficava na cidade de Lins, no noroeste paulista. Era um estabelecimento bem simples e meus avós a tocavam sozinhos. Meu avô no feitio dos pães, assando pães artesanais, roscas doces e salgadas, bem como pães com queijo e pão sovado. Minha avó recheava e fritava os sonhos e ambos se revezavam no balcão da padaria, atendendo aos clientes.

Eu gostava de ficar por lá, acompanhando o trilhar dos pães, os quais nasciam através das habilidosas mãos do meu avô, que misturava a massa, passava no cilindro, moldava os pães, cuidava do forno à lenha e os colocava para assar. No caminho entre a forma e o balcão eu interceptava pequenas joias que seguiam dentro da velha cesta de vime e os saboreava ainda quentes junto com uma imensa xícara de café coado em coador de pano. São recordações multissensoriais, repletas de cores, cheiros, sabores e sentimentos e que retornam sempre que eu adentro ou passo por alguma padaria.

Quando me mudei para São Paulo uma das características que mais chamou minha atenção foi a imensa quantidade e variedade de padarias. Há padarias imensas, nas quais, além do tradicional pãozinho, há salões onde é possível almoçar por quilo, comer uma pizza assada no forno à lenha, comprar bolos, frango assado aos domingos e feriados, lanches, laticínios e até livros e revistas. Há também padarias pequenas, tradicionais, familiares, nas quais é possível levar um pão fresco enrolado em papel. Temos ainda padarias típicas, com pães e outras iguarias italianas ou com doces e guloseimas portuguesas. Em meio a tanta diversidade é igualmente possível degustar pães gourmets em estabelecimentos que se parecem com delicados bistrôs.

Sejam como forem, todas elas tem em comum o mesmo perfume da minha infância, o mesmo cheiro de pão fresco que contagia o ambiente e que convoca minhas lembranças a se fazerem presentes. Nessas horas, todas as padarias me trazem um pouco do Seu Zé e me fazem sentir em casa, de retorno a um tempo que não volta mais.

Padarias há por toda São Paulo, mas é aqui nos bairros da Vila Mariana, Paraíso, Chácara Klabin, Vila Clementino e adjacências, pelos quais circulo cotidianamente, que costumo frequentá-las, sempre procurando conhecer uma diferente, degustar os pães, almoçar ou até mesmo parar por alguns minutos para observar o pessoal que trabalha nos bastidores e que é o responsável por todas as delícias que as padarias oferecem. Fico imaginando se lá atrás dos balcões há também alguém com mãos furtivas, surrupiando licitamente pãezinhos recém-nascidos, se há café fresco, se há também amor sendo transposto das mãos para a massa.

Em uma coisa, no entanto, aqui, as padarias diferem do interior: é no modo como são conhecidas. Em Sampa é comum as pessoas dizerem que vão à “Padoca” e minha origem interiorana fez com que eu demorasse um pouco a me habituar com essa palavra, mesmo que de sonoridade tão convidativa.

Vale a pena fazer um roteiro para conhecer as Padocas da região, para saborear pontos diversos de pães, para bater um bom papo ou apenas para relaxar saboreando um cafezinho passado na hora. Se olhar bem, dentro de cada Padoca tem a história de uma família, de sonhos que nem sempre são apenas doces, na luta pelo pão de cada dia. Lá dentro, na parte invisível aos olhos dos clientes, por certo há um outro José, trabalhando com afinco e amor, sem imaginar que, um dia, alguém, com saudades, deitará palavras pelo papel, tal qual ele deita os pães sobre as formas.

Cinthya Nunes

Cinthya Nunes

Cinthya Nunes
é advogada, cronista, professora universitária e paulistana de coração.
cinthyanvs@gmail.com