MOÇA BONITA NÃO PAGA

Creio que seja um consenso a ideia de que São Paulo é uma cidade formada por outras tantas. Cada bairro dessa metrópole guarda características tão únicas que fazem com que seja possível identificar, em vários deles, qual a principal influência imigratória que receberam, bem como qual é a o tipo de comércio que mais se destaca, tal qual acontece, por exemplo, com bairros como a Liberdade e o Bom Retiro, por exemplo.

Em muitos aspectos a cidade de São Paulo, quando observada não no macro, como megalópole, mas no micro, na vida que se desenvolve em cada bairro, não se difere muito de outras tantas cidades, nem mesmo aquelas do interior. Uma faceta disso são as feiras livres que acontecem por praticamente toda a cidade, sendo inclusive bem marcantes no bairro da Vila Mariana e nos arredores, como Vila Clementino e Aclimação, entre outros.

Pessoalmente, sempre gostei de frequentar feiras livres, seja pela variedade de frutas, legumes e verduras sempre frescas, seja pelo evento em si. De muitas formas as feiras livres me remetem às memórias de infância, lá no interior do Estado, na cidade de Lins, onde uma das feiras livres até hoje ocorre há menos de um quarteirão da casa dos meus pais. Essas feiras, além de me permitirem boas compras, ainda me trazem um sentimento de familiaridade, de estar em um lugar no qual a tecnologia pouco alterou, onde as pessoas mais conversam entre si do que olham para as telas de seus celulares.

Desde que me mudei para cidade de São Paulo, há quase dez anos, completamente de forma inadvertida, acabei indo morar próxima de ruas nas quais as feiras livres acontecem. Todas as sextas-feiras, tudo que preciso fazer é andar por cem metros e estou dentro da feira livre que ocorre na Rua Gandavo, na Vila Clementino. Depois de nove anos já conheço praticamente todos os feirantes ou ao menos aqueles em cujas barracas eu compro os produtos que serão consumidos na semana seguinte.

Com o tempo acabei conhecendo até mesmo uma parte da vida dessas pessoas, trabalhadores que chegam para montar as barracas enquanto ainda é madrugada, faça chuva, faça sol, esteja frio ou calor. Engraçado ver como buscam chamar a atenção da clientela que passa por entre as barracas examinando os produtos expostos, carregando sacolas ou puxando carrinhos. Em meio ao colorido dos vegetais há ainda espaço para as barracas de tapioca, de fl ores, de cereais, de queijos, frango, peixes, especiarias e o bom e velho pastel. Verdade seja dita, pouca coisa é tão atraente e saborosa quanto um pastel de feira. Para os apreciadores ainda há a opção de molhos e até mesmo o acompanhamento de um copo de água de coco ou de caldo de cana.

Qualquer um que passar por uma feira livre consegue ver que boa parte das pessoas se conhece, cumprimentando-se pelo nome ou mesmo fazendo brincadeiras com o time de futebol alheio, como o Corinthians do japonês da barraca de bananas ou o Palmeiras do dono da barraca de batatas! Difícil mesmo é estar em meio à feira livre e não ouvir o famoso “moça bonita não paga, mas também não leva” quase sempre dirigido a todas as mulheres do local, sabedores que são os feirantes de que um elogio pode lhes render boas vendas a mais.

Na “minha” feira já conheço até os gritos de guerra de alguns feirantes, normalmente utilizados quando a feira se aproxima do final, da hora conhecida como Xepa, momento no qual os preços caem e fi ca mais fácil barganhar, sobretudo mercadorias especialmente perecíveis, tais como verduras e frutas muito maduras.

Nas feiras livres as pessoas também parecem estar menos presas a certas convenções e hábitos de uma cidade grande. Estranhamente sabemos dos filhos de um, da esposa brava do outro, bem como somos gentilmente inquiridos sobre os motivos de não termos comparecido em determinado dia, eis que o Dia da Feira é quase um encontro fi xo, um momento no qual tempo e espaço brincam de retroceder e, por alguns momentos, somos todos amigos, esquecidos da violência, da insegurança e até do politicamente correto, porque ali as brincadeiras se sabem brincadeiras.

Nossas compras são levadas até a porta de casa, até o carro, e se temos sorte de sermos amigos do Luiz da barraca de frutas e até fazem nossa compra quando não podemos, guardiões da chave do nosso portão de casa. Espero que a modernidade não se apodere das feiras livres para além do uso de cartões, pois não quero um mundo no qual não seja possível ouvir as risadas que nascem da estranha Babel de alimentos e pessoas, tudo isso embalado com delicioso cheiro de pastel…

Dra Cinthya Nunes

Cinthya Nunes

Cinthya Nunes
é advogada, cronista,
professora universitária e
paulistana de coração.
cinthyanvs@gmail.com