E mais um ciclo se encerra

Mais um ano vai chegando ao fim e, uma vez mais, a grande maioria de nós faz o exercício de olhar para trás e analisar o que se passou, desejosos de tentar ainda cumprir aquelas promessas que fizemos, sobretudo a nós mesmos, em meio à euforia das comemorações dos estertores do ano passado. E assim, quase sempre é a mesma coisa: concluímos que entre erros e acertos, fizemos tudo que estava ao nosso alcance e apenas nos resta renovar os propósitos ainda válidos, ou então, sonhar sonhos novos.

Confesso que posso compreender as razões que nos levam a agir dessa forma. É mais do que compreensível o nosso desejo de renovação, de esperança de que a vida também se renove de acordo com os ciclos de tempo terrestres, conforme o mundo gira e as estações se sucede. Se é fato que o tempo faz germinar as sementes, desabrochar as flores, adocicar os frutos, é lícito que nós, seres humanos, também nutramos o desejo de que ela nos renove, nos transforme de broto em tronco. Apenas nos esquecemos, não raras vezes, de que as raízes não se fincam no solo sem esforço e sem vencer as diversas pedras pelos seus misteriosos caminhos. Do mesmo modo, a cada nova semente que se aventura pela vida, outras árvores vão tombando, exaustas, pelo tempo que cobra seu pedágio.

Enquanto, portanto, é dado a nós o caminhar por esse mundo, vivemos esperançosos de realizações e vamos, na medida do que somos capazes, buscando executar os planos que sonhamos. No meio de toda nossa busca, vai se passando aquilo que chamamos por vida, sem que, em muitas vezes, sequer nos demos conta. Ainda que eu considere que a grande parte de nós prioriza a chegada e não o trajeto, considero que o afã por anos vindouros, por emoções que nos revigorem alguns fardos existenciais, é algo positivo. O que seria, afinal de tudo, da humanidade se lhe fosse ceifada a capacidade de sonhar?

Uma das coisas mais curiosas, ao meu sentir, é que, ao menos para mim, tenho quase sempre a sensação de que o tempo voou e que eu me perdi em algum ponto que não o vi passar. Quando essa sensação me abate e inevitavelmente o faz aos finais de ano, eu busco encontrar um tempo para olhar ao meu redor com mais atenção. Começo, inclusive, a fazer isso enquanto caminho pelas ruas, principalmente por onde moro, na Vila Clementino, aqui em meio a tal da “paulicéia desvairada”.

Puxando pela memória eu constato que os ipês que adornam muitas calçadas já nos brindaram com suas chuvas de flores brancas, amarelas e rosas. As fotos que imaginei tirar deles, ficou apenas em minha memória, porque as flores não esperam plateia para se deitarem ao chão. Quando dei por mim, já eram paisagem passada. Do mesmo modo, vem a minha memória recente a quantidade de amoras que, túrgidas de tão maduras, tingem tudo que nelas toca, até mesmo as fezes dos pássaros que, repletos delas, não dão conta de evitar que forrem o chão. Nessa hora me dou conta de que as ameixeiras, as pitangueiras e outras tantas árvores frutíferas que existem por aqui e em vários outros bairros de São Paulo já protagonizaram seus espetáculos e que, uma vez mais, ciclos se concluíram. Penso, nessa hora, em um trecho de uma música do Chico que diz que “o tempo passou na janela e só Carolina não viu”. Seria a cegueira da tal Carolina a pressa dos dias que nos atropelam?

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Movida por esses pensamentos, notei o quanto o bairro mudou em um ano. Alguns vizinhos se mudaram daqui sem que eu soubesse sequer os seus nomes, até porque sempre teríamos um tempo para apresentações, para uma palavra a mais. Ao menos no mundo no qual o tempo fosse imutável. Notei também, em algum momento desse ano, que um senhor bem idoso, muito simpático e que passava na rua de casa brincando com todo mundo, respondendo ao nosso bom dia, de forma travessa, que “não sabia para quem, já que ele não tinha dinheiro”, não era visto por nós há algum tempo e agora, que nem sei o nome dele, prefiro imaginar que deitou suas folhas ao vento, virando, igualmente travesso, a página final de seus planos, do que buscar saber a verdade.

Uma vez mais, assim, vejo que tempo passou. Já é chegado novamente o tempo no qual buscamos a companhia daquele aos quais amamos, amigos e parentes, e tentamos eliminar alguns dos erros que sabemos ter cometido. Brindamos a vida que segue e rogamos ao Universo que nos permita estar aqui por mais um ano, para termos mais uma chance de fazermos o que é certo, de nos tornarmos aquilo que projetamos ser em nossos corações e mentes. Espero, profundamente, que mais do que termos essa chance, saibamos utiliza-la de forma plena, não perfeita, o que nos é impossível, mas de forma sábia, com olhos de ver o mundo, de admirar os ciclos do início ao fim. Que a sabedoria para dias melhores seja nosso presente para 2017. Feliz Ano Novo…

cinthya-nunesCinthya Nunes
É advogada, cronista,
professora universitária e
paulistana de coração.
cinthyanvs@gmail.com