Chegadas e Partidas

Invariavelmente eu me pego pensando na vida. Com certeza esses pensamentos fazem parte, em algum momento, das mentes de todas as pessoas, eis que nossa natureza tênue, transitória, é campo fértil para isso. Complicado viver sem refletir sobre o significado dos dias nos quais nos é permitido caminhar por esse mundo.

Conforme os anos invadem nossos dias, a partir do momento em que, ao menos estatisticamente, temos mais dias nas nossas costas do que à vista de nossos olhos, isso se adensa, esse sentimento de que é preciso dar significado a algumas coisas, se avoluma sob nosso peito.

Uma das situações que especialmente me tocam, deixando-me até nostálgica é ver como a vizinhança vai mudando com o tempo. Para além do fato de que as pessoas se mudam, vão para outros bairros ou para cidades mais distantes, há o oposto dos nascimentos e das chegadas. As partidas derradeiras transformam tudo de forma irremediável.

Moro em uma rua de um único quarteirão e é difícil não conhecer todos os moradores das redondezas. Vinda de uma cidade do interior trouxe comigo o hábito de cumprimentar as pessoas e, se possível for, criar vínculos de amizade. Até mesmo os nomes dos animais de estimação de muitos dos moradores eu aprendi.

Nesses nove anos que me encontro morando no mesmo lugar já vi muita gente chegar e partir. Confesso que em muitos casos eu sou pega de surpresa, assustada que fico com a fragilidade da vida. Quando se tem uma vizinhança conhecida e amigável, o significado de casa se amplia. Falo daquela sensação de familiaridade que nos invade sempre que retornamos de viagem, por exemplo, e adentramos no bairro em que residimos, quando o carro ou o ônibus se avista nas nossas esquinas.

Perto de casa, por exemplo, havia um senhor já de idade avançada, que andava para cima e para baixo, com uma pisada forte, sempre brincando com todo mundo. Assim que ele nos avistava, com uma cara que marotamente fazia parecer severa, ele perguntava: “Vocês sabem para onde estão indo?” Aos risos, respondíamos ora que sim, ora que não. Mas ele sempre dizia que ele não sabia. Pura prova de que era um sábio, à maneira dele.

Um dia, porém, demos conta de que já fazia um tempo que não o avistávamos. Descobrimos que, viúvo, com a saúde debilidade, havia se mudado para perto dos filhos. Ninguém soube me informar ao certo, mas ao que tudo indica, ele se foi para onde todos têm um lugar reservado, ainda que possam variar os andares.

É claro que a existência humana é como um rio cujas águas se alternam entre abundantes e raras, fazendo com ele seja novo a cada dia, a cada metro ou segundo percorrido, mas eu sofro de “nostaligices” e vivo com saudades de tudo e de todos que conheci. Assim, mesmo sabendo que as partidas são inícios de outras chegadas ou até de retornos, eu não me consolo facilmente quando alguém se vai.

A cada dia mais começo a entender quando antigos moradores do bairro comentam, com o olhar meio perdido no emaranhado das memórias, que tudo está diferente, que no tempo deles havia uma loja por ali, que acolá morava a Dona Beltrana e que era possível ver até mesmo um olho d’água que corria por perto. Finalizam afirmando que tudo hoje está tão diferente. Tantos hojes em uma vida para relembrarmos os ontens…

É claro que a gente se adapta e que é preciso aceitar que no banco do tempo não se faz apenas saques, eis que é possível também creditar. Tudo depende, sempre, da forma de ver e sentir as coisas. Inegável, entretanto, que sempre que vemos as crianças da vizinhança irem se tornando moços e moças, quando nos despedimos de velhinhos que costumávamos acreditar sempre parte de um contexto imutável, bem como quando guardamos uma das coleiras que levavam ao passeio de domingo um de nossos cães, nosso coração nos relembra ou nos ensina que não há tempo que valha perder com pequenezas.

Enquanto penso sobre isso, noto que é época de mais uma floreada dos inúmeros ipês rosa e amarelos que enfeitam os arredores. Olho para o tapete colorido que enfeita as ruas e calçadas e penso que as flores têm sua beleza na copa das árvores, mas também dão um show à parte quando se deitam no chão. Rogo ao Universo pela sabedoria da simplicidade das coisas da natureza para entender todas as partidas, para ser grata pelas chegadas e para que um dia, quando também chegar a minha hora, ter sido capaz de deixar algum perfume, algum sorriso por onde passei, por onde deitei minhas palavras.

Dra Cinthya Nunes

Cinthya Nunes

Cinthya Nunes é advogada,
cronista, professora universitária
e paulistana de coração.
cinthyanvs@gmail.com