Música na veia

Kid Vinil - foto: Paula Rasec
Kid Vinil - foto: Paula Rasec

Antônio Carlos Senefonte é o nome de Kid Vinil, ícone dos anos 80 que, além de cantor é radialista, jornalista e compositor. Ficou conhecido, nacionalmente, com as músicas “Tic Tic Nervoso”, “A Gata Comeu”, “Sou Boy” e “Glube Glube no Club”. Nesta época, início dos anos 80, ele já havia tocado banda Verminose, voltada para o punk rock e rokabilly sendo um dos incentivadores do movimento punk paulista.

Kid Vinil também é conhecido como a enciclopédia da música, por sua coleção de discos de vinil e cd’s que, apesar de ter parado a contagem, acredita estar em mais de 20 mil unidades.

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Confira a entrevista!

Qual sua primeira contribuição para o movimento punk no Brasil?

Eu sempre fui um cara que gostou trabalhar com música, trabalhei muito tempo em gravadora e disso veio a oportunidade de fazer um programa de rádio. Na época, o punk era o que estava acontecendo e a gravadora me mandava muito para fora, trazia os discos, tocava no meu programa e fazia todo aquele transito de informação sobre o movimento.

Você sempre foi um grande garimpeiro dentro da música, trazendo bandas novas e estilos diversos do mundo inteiro, o que mudou dos anos 80 para cá?

Fui meio que um porta voz de todas estas coisas novas, num momento que o rádio não tinha programas especializados, então eu fui meio pioneiro e desbravador desta história toda, o que foi legal para mim, naquele momento, porque tive um espaço e fiz meu nome quando surgiu o programa de rádio.

Hoje, a informação chega muito rápido, naquela época tinha que trazer os discos e ter maneiras e conseguir estas coisas, então existia o pioneirismo. Agora a linguagem é outra. Não existe mais este lance de pioneirismo, mas ainda é legal. Fui numa loja de discos de um amigo e ele me disse que sempre vai alguém aqui lá dizendo que “ouvi no programa do Kid, você tem?”, os meus programas são isso, eu mostro coisas antigas e novas e sempre dou uma referência, aí as pessoas vão atrás. Os caras das lojas trazem um monte de coisas novas e tem um público forte, principalmente na música mais alternativa, mais específica, existe um público consumidor, mesmo com essa facilidade de ouvir online.

7-single-magazine-sou-boy-nacional-compacto-kid-vinil-D_NQ_NP_195901-MLB20443546819_102015-FO Magazine atingiu o auge que toda banda sonhava, na época, com músicas tocando no rádio, a toda hora, e depois, com outra em um tema de novela. Como foi isso?

Nós fomos super felizes. Na época, muitas bandas tentaram e nós demos uma sorte, aquilo não foi uma coisa premeditada, era uma música, que foi uma brincadeira. Fui office-boy, com um amigo nosso, o Agnaldo, que fez a letra, nós trabalhamos o arranjo e nem imaginávamos que fosse dar certo. Tudo bem que tinha uma boa gravadora por traz, a música tinha um apelo popular na época, mas foi sorte. Não imaginávamos que fosse acontecer daquela maneira, tão rápida, como aconteceu. Nem estávamos preparado pra isso, na nossa cabeça deu um nó. Mas foi muito bom, marcamos, mas não tivemos estrutura para continuar. Na verdade, eu não tive, estava com diversos problemas de saúde e uma série de problemas e as drogas. Eu estava envolvido em coisas que eu me disse: “se eu não parar agora, eu vou morrer”. Depois, voltei a trabalhar com música, mas, antes precisei dar um tempo.

Eu trabalhava na gravadora Continental, e aí os caras ouviram ouviram a música “Eu sou boy”, viram um show nosso e falaram que eu era muito louco, que não me encaixava na estética da gravadora e que a música não ia dar em nada. Nós mandamos a fita para todas as gravadoras e todo mundo negou. Aí, os caras da Warner foram assistir um show nosso e pensaram “estes caras tem alguma coisa diferente”, nos chamaram, gravamos, eles gostaram e foi isso aí.

cd-magazine-na-honestidade-2002-novo-lacrado-original-14345-MLB3631997463_012013-OJá música “Tic Tic Nervoso”, um belo dia um cara chega com uma fitinha na Continental com uma música, não era o mesmo arranjo nosso, ouvi e pensei, que merda, e descartei a música. Aí o baixista pegou a fita e mostrou para o baterista. No ensaio, eles ficavam na minha orelha “isso me dá um tic tic nervoso, tic tic nervoso” eu falei para eles: “Vocês vão querer gravar esta merda?, está bom, liga pro Liminha no Rio e fala que vamos gravar”, nós gravamos a música e quando eu escutei falei na hora, “essa porra vai dar certo”.

O Magazine está de novo reunido, como é tocar com estes caras após tanto tempo e o que podemos esperar desta nova fase da banda?

O guitarrista estava morando fora e nós já estávamos pensando em voltar há algum tempo, eu já tinha trabalhado com o baterista e o baixista há algum tempo na gravadora Trama, aí ele voltou de Miami e marcamos uns encontros, hoje ele tem um estúdio na casa dele, na Aclimação, e a conversa foi assim: “nós não tá fazendo nada, você também taí, seria legal, estamos vivos porque não?” (Risos). E está todo mundo bem, tocando super bem, aquele negócio da idade não atrapalha em nada. Nós não temos nenhuma pretensão, se pintarem uns shows, como tem pintado, um aqui outro ali, legal. Hoje é diferente, não tem mais uma gravadora por trás, mas a mídia tá ai na internet, e outras coisas, você mesmo acaba criando de qualquer forma. O importante e estar registrando isso, estar junto, sempre rolou uma química boa para tocar, então é legal isso, se encontrar no final de semana com os amigos e se divertir.

Na sua coleção de discos tem de tudo, mas qual foi o início de tudo isso, quais foram suas primeiras influencias?

Eu tenho tudo que você possa imaginar dentro dessa coisa do próprio rock, 50, 60, 70, 80 até hoje. Comecei ouvindo Beatles e Rolling Stones, como todo mundo. Meu irmão era super fã deles, então minha base foi essa, em 60 teve a Jovem Guarda, que eu gostava. Roberto, Erasmo, Vanderléia, Mutantes, Rony Von, tudo isso foi meu irmão mais velho que me mostrou e me levava pra ver, ele me ajudou muito nessa formação. Desde criança, em casa, todo mundo ouvia as música dos anos 60, então meio que veio de berço.

O que você vê nesse cenário atual, dominado pelo sertanejo universitário, sem espaço para outros gêneros?

Hoje, é tudo a mesmo assunto, a mesmo ritmo, eu não tenho nada contra música dançante, tudo bem, o Brasil é um país de ritmos dançantes, as pessoas querem dançar e se divertir. Mas, ao mesmo tempo, tinha que ter um espaço, ou alguém que colocasse na cabeça das pessoas: “olha não é só isso gente, vamos ouvir um pouco da história da música popular brasileira, vamos ouvir coisas novas e interessantes que tem por aí, interpretes, compositores, tem muita gente boa”. Nos anos 80, tinha muito isso. Nas rádios, que mostravam coisas novas, falavam que tinha o brega, mas também tinha um Milton Nascimento, estas coisas legais. Hoje, isso não acontece mais, as rádios esqueceram esse negócio de música como cultura. Isso que é uma pena, nós perdemos isso, um valor que é importantíssimo para cultura de um país.

comeuEstes programas de Tv para escolha de bandas e cantores, você acha que são válidos?

Isso eu acho muito legal, sempre revelam umas coisas legais, eu não acho que eles não devam existir. As pessoas vão lá, se inscrevem, é uma maneira da música continuar, os jurados são muito bons, mostram ritmos diferentes que é muito bom, trazem essa riqueza cultural do Brasil. Eu não desprezo nenhum ritmo musical, todos eles têm coisas muito interessantes.

Como foi a experiência de ter um programa de rádio dedicado ao público punk, nos anos 80? Teve um momento de revolta do público nessa fase, não é?

Magazine e Kid Vinil - CapaEu me comunicava com um público de periferia, ofice boys e eles nem imaginavam que eu fosse um executivo de gravadora. Na época, eu já era responsável por uma gravadora, era um fardo nas costas que não era brincadeira e, ao mesmo tempo, eu falava na rádio para uma garotada que, quando eles descobriram que eu era um cara tão engajado com o sistema, trabalhava com uma empresa da Rede Globo, que era a Excelsior, aí houve uma revolta, tipo: “este cara é um traidor, um falso, não é um punk de verdade”. Eu apenas gostava da música, não me identificava com o punk, eu achava legal e fazia um programa que é o retrato de uma época e tinha uma música que eu simpatizava e gostava também. Se eu não gostasse, não tocaria, mas houve este choque e, ao mesmo tempo, eu tinha uma banda que não era necessariamente uma banda de punk, nós tocávamos rokabilly, Rita Lee, Joelho de Porco, Tutti Frutti aquelas coisas da época né?

Então, era meio confuso na cabeça deles também esse meu ecletismo musical, eu não era um radical, nunca fui. Eu vim do rock progressivo e coisas deste tipo, eu cresci nos anos 60 e 70 então já tinha uma bagagem e isso era muito difícil deles entenderem e hoje dão risada.

imagens: Paula Rasec